Curadoria Inteligente

Por Bárbara Mandarano

Muito tem se falado sobre consumo consciente, desapegar de roupas e acessórios que estão parados em casa é uma ação que vem ganhando força, espaço e influenciando pessoas de todo mundo em um movimento que não pode parar. Para preservar essa prática e levá-la ainda mais longe, projetos surgem mesclando o consumo de moda a um impacto social mais efetivo.

Brechós e bazares tem feito um trabalho de arrecadação de donativos com lucro total ou parcial em beneficio de instituições que ajudam pessoas em situação de vulnerabilidade. Além da ação de arrecadar fundos, essa atividade contribui para o aumento e consciência no consumo de moda.

Afinal o que é moda consciente?

De acordo com o site Etiqueta Única, a moda consciente é quando o consumidor manifesta em suas compras uma preocupação com questões ambientais e sociais que envolvem a produção em massa, esse consumidor esta em busca de peças que tenham significado.

Já a moda sustentável ou eco fashion, esta ligada a forma como os artigos de moda são produzidos e tem a preocupação em usar métodos de produção que não produzam ou diminuam o impacto ambiental.

Os novos consumidores estão em busca de produtos duráveis, como falamos anteriormente na primeira edição da revista no texto “Hora da Verdade”, a moda sem estação transformaria por completo a indústria, trazendo ao público algo atemporal, um consumo responsável. Classificar a Moda como atemporal exige mais pesquisa, maior profundidade de conceitos, práticas e produtos que mostram que a Moda não deve se desfazer rapidamente com o passar do tempo.

Onde surgiu o primeiro brechó do Brasil?

De acordo com o escritor Antônio Houaiss, em Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a primeira loja de venda de roupas e objetos de segunda mão no Brasil, surgiu no Rio de Janeiro no século XIX, fundada por um comerciante português chamado Belchior. Originalmente, assim eram conhecidas as lojas de roupas e objetos usados que com o tempo acabou se transformando em Brechó.

Em um estudo sobre o consumo de roupas de brechó da cidade de Porto Alegre, a pesquisadora Lígia Helena Krás afirma que é preciso considerar que na Europa, os brechós, ou Vintage Clothings Store, são lojas especificas de roupas e acessórios de época apenas, diferente das Second Hand Store, que vendem roupas usadas sem especificação de épocas.

No Brasil ainda não existe essa diferença clara, a prática do brechó como loja de roupas antigas é muito recente.

Alguns elementos ligados ao que um brechó representa além da origem das peças, são questões relacionadas à sujeira, doença, energia e até mesmo sexo. A origem dessas peças gera questionamento em algumas pessoas que não aprovam a ideia de comprar roupas que não sabem a quem pertenceu pelo fato desse alguém ter morrido visto como algo mórbido, justificando que mesmo lavando as roupas estão impregnadas energeticamente.

De acordo com a pesquisadora Lígia Helena Krás, o preconceito com a roupa não é por ser antiga, mas por ser usada.

Foto: Pinterest

Ela ainda afirma que convém ressaltar que novo, velho, usado e antigo são classificações relativas. Pode ser um vestido novo de 1960, ele será novo se nunca tiver sido usado, essa é a relação do novo com o usado. E pode ser um vestido velho de 2005, se ele tiver sido usado muitas vezes. Sendo assim, é importante deixar claro que o preconceito pelo velho, usado, não deixou de existir, nem mesmo por quem gosta muito de roupas antigas. O preconceito com o antigo existia mais e agora por uma questão de estratégia do mercado da moda, tem diminuído. Antigo se refere a épocas passadas, que pode ser antigo e novo, caso tenha sido pouco usado ou mesmo guardado sem nunca ter sido usado.

Não vale ter preconceito, experienciar brechós pode ser muito interessante além de divertido, vai ter sempre aquela peça perfeita esperando por você. A moda precisa ser pensada de maneira mais consciente, no momento em que se compra uma peça ou quando se descarta, pois vale lembrar que dividimos o mesmo planeta e precisamos nos responsabilizar pelos nossos consumos.

Moda, Imagem, Identidade e os Influenciadores Digitais

Por Bárbara Mandarano

O nascimento da moda é paralelo ao da classe burguesa e com a capacidade de liberdade e democracia no que diz respeito ao indivíduo. A moda representa à construção da identidade e esta diretamente ligada à imagem. A sociedade e seus indivíduos passam por processos de evolução acompanhados pela moda e pela representação da identidade. No mundo globalizado, pela internet, as pessoas recebem grande quantidade de informação e influência cultural o tempo todo, esta multiplicidade de influência faz com que as pessoas se desenvolvam e apresentem seus respectivos estilos.

Atualmente, além da explosão de influências e referências que surgem a partir da internet, também aparece uma nova categoria, totalmente construída no universo virtual, perfis conhecidos como influenciadores digitais. A discussão teórica que esta tendência traz, tem relação com a construção de uma imagem de si, de uma marca que possa ter valor de troca para empresas dos mais diversos segmentos.

No livro A identidade cultural na pós-modernidade, Stuar Hall afirma que a constituição de identidade acontece na relação com as pessoas quem mediam os valores, sentidos e símbolos. Ou seja, a cultura para o sujeito se desperta como identidade construída no processo de interação entre a sociedade e o sujeito, em um diálogo contínuo com o mundo. É a partir desta relação que o sujeito se projeta e incorpora imagens e símbolos que vão compor sua identidade.

            Na publicação de Maria Helena Pontes sobre moda, imagem e identidade ela aborda a sociedade contemporânea e globalizada, onde a tecnologia permite que a comunicação entre os mundos distantes aconteça em tempo real, fazendo uma conexão entre pessoas e lugares. Neste cenário é possível destacar um papel cada vez maior de influência das imagens do dia a dia.

            A comunicação, relações entre culturas, imagens e notícias assumem uma dimensão cada vez maior na era da informação, fazendo com que a identidade das pessoas sofra uma interferência constante do mundo externo. Neste universo em que a imagem tem domínio e a moda uma maior predominância sobre o comportamento social, é possível consumir a imagem e identidade através da moda. Todo mundo se identifica pelo desejo de ser em contraponto com o sentimento de pertencimento a determinado grupo, este caminho leva o indivíduo em direção ao consumo e a multiplicidade da própria identidade.

            Ainda falando sobre identidade, toda e qualquer identificação busca moldar uma pessoa segundo o aspecto daquele que foi tomado com o exemplo de modelo ideal. A identificação surge como uma característica comum onde se percebe as semelhanças entre uma pessoa e outra.

            As pessoas podem se identificar por tradições ou por questões sociais que são impostas ao que se espera de cada um, porém com o mundo globalizado e essa enxurrada de informação é possível ser autêntico, o que possibilita uma mudança no seu papel social e na sua identidade. A moda sempre foi ligada às novidades, trazendo coleções periódicas como aparato para atrair pessoas pelos desejos de consumo.

            Guilles Lipovétsky em O império do efêmero apresenta o surgimento da classe burguesa e a relação com um processo de luta de classes na busca por prestígio e aparência. A burguesia com seu enriquecimento busca tornar evidente seu poder se vestindo tal qual a nobreza. Entende-se por um jogo de representações visuais que a roupa constrói, gerando uma moda que se reinventa e se faz circular.

            Para Maria Helena Pontes, a moda é um modelo de representação a ser seguido, se liga a outros assuntos na tentativa de construir significações, ou fazer uso delas uma vez que as significações já foram atribuídas às pessoas anteriormente. Os símbolos da moda transmitem muito mais que as roupas em questão, exibindo-se como um modelo de referencia de uma época, modelo de valores que se oferecem á identificação como modelo ideal de estilo de vida.

            Através de roupas, sapatos, acessórios, maquiagens e comportamento uma pessoa pode usar sua aparência em postagens relatando o dia a dia da sua vida e projetando suas ideias e valores. Cada blogueira expressa seu ponto de vista e a forma como se constrói através da moda, transformando sua rede social em um espaço que expressa sua própria identidade, espaço que se torna uma mediação entre as tendências da moda e a construção de uma moda de múltiplas referências e identidades construídas diariamente por pessoas comuns.

No artigo Influenciadores digitais: o Eu como mercadoria da pesquisadora Isaaf Karhawi, é retratado que a noção de influenciador digital passou por novas roupagens , desde prosumidor (neologismo criado com a junção dos termos produtor e consumidor) até curador de informação.

Shirky, em seu livro “A cultura da participação” (2011), fala sobre a possibilidade oferecida pelas mídias sociais digitais de um internauta ser também produtor, a revolução esta centrada na inclusão de amadores como produtores, em que não precisamos mais pedir ajuda ou permissão a profissionais para dizer coisas em público.

Um influenciador produz com frequência e credibilidade conteúdos temáticos, neste processo, ele deixa de ser um internauta comum e passa a ser encarado como uma mídia autônoma, uma marca.

Ainda para Isaaf Karachi, as blogueiras de moda são precursoras desse novo estilo profissional na área da comunicação, além de levar informações sobre moda e beleza para pessoas afastadas dessas informações que são típicas por revistas especializadas da área, elas também constroem comunidades de leitores e seguidores que confiam em suas opiniões. As pessoas se tornam cada vez mais próximas e humanizadas de toda a informação com a qual tem contato diariamente.

Roberty Henry Srour em Ética empresarial: a gestão da reputação”, explica que a reputação esta diretamente ligada à confiança coletiva, “à legitimidade que se conquista pelas políticas praticadas ou pelas ações cometidas”, pontua o autor. As mídias sociais e digitais facilitam os processos de reputação, pois permitem moldar as ações praticadas no espaço digital de acordo com as imagens de si que se pretende divulgar.

            A pergunta que pauta todas essas questões é bem simples; Por que nos interessamos pela vida e imagem do outro? Quem ampara esse modelo de influenciadores? Estamos falando da mesma sociedade que posta e curte selfies, que faz publicações do almoço, do jantar, da academia que frequenta. Para Karhawi, essa é uma sociedade baseada na imagem e na repercussão dessa imagem no ambiente digital.

            Empresas procuram influenciadores para conquistar os públicos e os influenciadores também procuram marcas que lhe agreguem valor. É importante ressaltar que o trabalho de influenciador é uma união entre duas marcas, por essa razão a liberdade de criação é essencial quando se trata de produtores de conteúdo digital e não com modelos e celebridades.

            Os influenciadores são mídias autônomas e têm uma imagem de si construída sobre uma estrutura sólida de reputação e legitimidade no espaço digital. Eles se aproximam mais do consumidor, o que representa melhor a era globalizada, é a representação de um novo tempo, uma nova comunicação de moda.

Moda&Doenças

Por Bárbara Mandarano

Não é a primeira vez que a Indústria Fashion é interrompida por uma pandemia, e sabemos que a Moda consegue elaborar diretrizes nas mais diferentes épocas, interagindo com o momento que acontece na sociedade, mesmo que seja a luta contra alguma doença. Em outros momentos da história o universo das tendências e das coleções já passou por situações de pandemia, em cada uma delas surgiram novos padrões que foram comercializados e consumidos, muitos mantidos até mesmo após o fim de cada período. 

Temos exemplos como a tuberculose, que foi a primeira epidemia a ditar padrões estéticos na Era Vitoriana. A Peste Negra, que criou a necessidade da produção de roupas de proteção, praticamente peças assustadoras e assombrosas. Os corpos magérrimos como estética padronizada no final dos anos 90, e agora, os dias de luta contra a COVID-19. 

Não é a primeira vez que a Indústria Fashion é interrompida por uma pandemia, e sabemos que a Moda consegue elaborar diretrizes nas mais diferentes épocas, interagindo com o momento que acontece na sociedade, mesmo que seja a luta contra alguma doença. Em outros momentos da história o universo das tendências e das coleções já passou por situações de pandemia, em cada uma delas surgiram novos padrões que foram comercializados e consumidos, muitos mantidos até mesmo após o fim de cada período. 

Temos exemplos como a tuberculose, que foi a primeira epidemia a ditar padrões estéticos na Era Vitoriana. A Peste Negra, que criou a necessidade da produção de roupas de proteção, praticamente peças assustadoras e assombrosas. Os corpos magérrimos como estética padronizada no final dos anos 90, e agora, os dias de luta contra a COVID-19. 

No estudo realizado por Leandra Batista e Cláudia Santos, sobre o desenvolvimento de um programa de controle de tuberculose na cidade de Duque de Caxias, a doença comentada existe desde o inicio da evolução humana, os primeiros relatos de seu surgimento foram no Egito antigo onde atingia mais os negros e os índios, pois além de escravizados, as condições de trabalho, moradia e higiene eram péssimas, o que fazia com que a enfermidade se espalhasse com mais facilidade. 

Por um longo período a tuberculose foi romantizada pelos poetas, artistas e intelectuais da literatura, eles consideravam que a doença atingia a sensibilidade da alma. Os artistas e poetas viviam numa nostalgia, acreditando que atingiam seus melhores momentos de inspiração, a doença os deixava em momentos melancólicos de profunda tristeza e dor, afirma Ângela Pôrto em sua obra Representações Sociais da Tuberculose. 

Com a Moda não foi diferente, na Era Vitoriana, em meados do século XIX, foi bastante perceptível os padrões estéticos definidos a partir da tuberculose, o semblante febril e apático criavam idéia de beleza. A pele branca, bochecha rosada, boca vampiresca e olhos profundos eram considerados na época um visual chic.

Nas roupas era possível observar mudanças decorrentes da doença, os vestidos eram decotados e o colo estava sempre à mostra. Quando se entendeu que a doença atacava as vias respiratórias e a garganta precisava de proteção, as golas altas apareceram, e os babados foram estrategicamente localizados no pescoço.

Outro detalhe importante era a calda extensa dos vestidos, que se arrastava por toda parte, levando sujeiras e germes para dentro das casas. Logo que tiveram essa percepção, encurtaram os comprimentos trazendo assim uma evidência para os sapatos.

Outra pandemia que ocorreu entre 1347 a 1351 foi a Peste Negra, esta foi considerada uma das mais violentas pragas que atacou a humanidade. De acordo com Paola Churchill, no site Aventuras na História, a bactéria causadora da doença, Yersinapestis, teve origem na China ou na Ásia Central, viajou alojada nos intestinos das pulgas que parasitavam os ratos, animais que eram uma praga comum para época, vivendo nos porões das embarcações. 

A vestimenta usada por médicos era sinistra, com proteção da cabeça aos pés, ainda usavam uma espécie de máscara de bico que chamava muito a atenção. A maioria dos casos era presente em toda a Europa, porém o visual icônico se tornou destaque na Itália, local onde mais tarde, essa vestimenta se tornou uma fantasia para festa e comemorações do teatro e do carnaval.

Ao final dos anos 90, o culto à magreza excessiva era o padrão de beleza da vez, a Moda investia com força em corpos magros, com aparência que remetiam ao estado de enfermidade. A modelo Kate Moss declarou que um de seus lemas na vida que não havia nada melhor do que ser magra. 

Situações extremas aconteceram; como o caso da modelo brasileira Ana Carolina Macan, falecida em 2006, aos 21 anos, em decorrência da anorexia nervosa. Depois desta notícia, a mídia nacional abriu espaço para o debate sobre o peso e a saúde das modelos.

A gripe espanhola foi outra pandemia que se espalhou pelo mundo, a doença atacou a sociedade entre 1918 e 1919, o surto que ocorreu em meio a Primeira Guerra Mundial se espalhou rapidamente pelo mundo. 

Coco Chanel foi uma estilista de grande destaque após a guerra, ela inventou como as mulheres deveriam se vestir, e representava a nova figura feminina, independente, que desconstruía padrões e regras. O mundo inteiro vivia um período desfavorável que ia além dos campos de combate, causada pelo vírus influenza a (H1N1), a gripe espanhola tomou proporções de pandemia rapidamente. 

Não é fácil pensar em Moda quando a humanidade está enfrentando a ameaça de conflitos armados, catástrofes naturais ou pandemias como a que vivemos hoje. Mas acima de tudo, a Moda é uma afirmação do seu tempo, segue as transformações do mundo e as rupturas que o acompanham nos momentos mais sombrios.

A revolução fashion aconteceu quando as mulheres precisaram assumir papéis, até então considerados masculinos, como trabalhar em fábricas de aviões e guiar bondes, por exemplo. Para evitar acidentes, as roupas apertadas e pesadas, foram trocadas por uniformes e peças práticas. Na gripe espanhola, assim como nos dias de hoje, em momento de enfrentamento contra a COVID-19, as máscaras eram usadas por pessoas para se protegerem ao sair de casa.

Em tempos de Corona Vírus os impactos estão sendo profundas as transformações que vão marcar este momento com um novo processo na criação de hábitos, mudanças irão acontecer em toda sociedade. No artigo passado, sobre “O que estamos ofertando”, abordamos o fato do universo da Moda estar passando por um momento de ressignificação, promovendo produtos ofertados com honestidade e identidade.

Porém, como a Moda historicamente se apropria e se afirma de períodos e seus acontecimentos, a máscara que inicialmente era só cirúrgica, neste momento ganha espaço, e já tem empresas comercializando máscaras por preços excessivos com atrativos como cores, tecidos, estampas e até pedrarias. 

A máscara já pode ter se tornado o acessório da vez, além da utilidade, ela se tornou simbólica, por representar situações controversas, o cuidado, o senso de comunidade e também o medo e afastamento.

Bibliografia:

encurtador.com.br/lsOSZ

encurtador.com.br/cwAIV

encurtador.com.br/MNRTU

encurtador.com.br/eqsIN