Moda, Imagem, Identidade e os Influenciadores Digitais

Por Bárbara Mandarano

O nascimento da moda é paralelo ao da classe burguesa e com a capacidade de liberdade e democracia no que diz respeito ao indivíduo. A moda representa à construção da identidade e esta diretamente ligada à imagem. A sociedade e seus indivíduos passam por processos de evolução acompanhados pela moda e pela representação da identidade. No mundo globalizado, pela internet, as pessoas recebem grande quantidade de informação e influência cultural o tempo todo, esta multiplicidade de influência faz com que as pessoas se desenvolvam e apresentem seus respectivos estilos.

Atualmente, além da explosão de influências e referências que surgem a partir da internet, também aparece uma nova categoria, totalmente construída no universo virtual, perfis conhecidos como influenciadores digitais. A discussão teórica que esta tendência traz, tem relação com a construção de uma imagem de si, de uma marca que possa ter valor de troca para empresas dos mais diversos segmentos.

No livro A identidade cultural na pós-modernidade, Stuar Hall afirma que a constituição de identidade acontece na relação com as pessoas quem mediam os valores, sentidos e símbolos. Ou seja, a cultura para o sujeito se desperta como identidade construída no processo de interação entre a sociedade e o sujeito, em um diálogo contínuo com o mundo. É a partir desta relação que o sujeito se projeta e incorpora imagens e símbolos que vão compor sua identidade.

            Na publicação de Maria Helena Pontes sobre moda, imagem e identidade ela aborda a sociedade contemporânea e globalizada, onde a tecnologia permite que a comunicação entre os mundos distantes aconteça em tempo real, fazendo uma conexão entre pessoas e lugares. Neste cenário é possível destacar um papel cada vez maior de influência das imagens do dia a dia.

            A comunicação, relações entre culturas, imagens e notícias assumem uma dimensão cada vez maior na era da informação, fazendo com que a identidade das pessoas sofra uma interferência constante do mundo externo. Neste universo em que a imagem tem domínio e a moda uma maior predominância sobre o comportamento social, é possível consumir a imagem e identidade através da moda. Todo mundo se identifica pelo desejo de ser em contraponto com o sentimento de pertencimento a determinado grupo, este caminho leva o indivíduo em direção ao consumo e a multiplicidade da própria identidade.

            Ainda falando sobre identidade, toda e qualquer identificação busca moldar uma pessoa segundo o aspecto daquele que foi tomado com o exemplo de modelo ideal. A identificação surge como uma característica comum onde se percebe as semelhanças entre uma pessoa e outra.

            As pessoas podem se identificar por tradições ou por questões sociais que são impostas ao que se espera de cada um, porém com o mundo globalizado e essa enxurrada de informação é possível ser autêntico, o que possibilita uma mudança no seu papel social e na sua identidade. A moda sempre foi ligada às novidades, trazendo coleções periódicas como aparato para atrair pessoas pelos desejos de consumo.

            Guilles Lipovétsky em O império do efêmero apresenta o surgimento da classe burguesa e a relação com um processo de luta de classes na busca por prestígio e aparência. A burguesia com seu enriquecimento busca tornar evidente seu poder se vestindo tal qual a nobreza. Entende-se por um jogo de representações visuais que a roupa constrói, gerando uma moda que se reinventa e se faz circular.

            Para Maria Helena Pontes, a moda é um modelo de representação a ser seguido, se liga a outros assuntos na tentativa de construir significações, ou fazer uso delas uma vez que as significações já foram atribuídas às pessoas anteriormente. Os símbolos da moda transmitem muito mais que as roupas em questão, exibindo-se como um modelo de referencia de uma época, modelo de valores que se oferecem á identificação como modelo ideal de estilo de vida.

            Através de roupas, sapatos, acessórios, maquiagens e comportamento uma pessoa pode usar sua aparência em postagens relatando o dia a dia da sua vida e projetando suas ideias e valores. Cada blogueira expressa seu ponto de vista e a forma como se constrói através da moda, transformando sua rede social em um espaço que expressa sua própria identidade, espaço que se torna uma mediação entre as tendências da moda e a construção de uma moda de múltiplas referências e identidades construídas diariamente por pessoas comuns.

No artigo Influenciadores digitais: o Eu como mercadoria da pesquisadora Isaaf Karhawi, é retratado que a noção de influenciador digital passou por novas roupagens , desde prosumidor (neologismo criado com a junção dos termos produtor e consumidor) até curador de informação.

Shirky, em seu livro “A cultura da participação” (2011), fala sobre a possibilidade oferecida pelas mídias sociais digitais de um internauta ser também produtor, a revolução esta centrada na inclusão de amadores como produtores, em que não precisamos mais pedir ajuda ou permissão a profissionais para dizer coisas em público.

Um influenciador produz com frequência e credibilidade conteúdos temáticos, neste processo, ele deixa de ser um internauta comum e passa a ser encarado como uma mídia autônoma, uma marca.

Ainda para Isaaf Karachi, as blogueiras de moda são precursoras desse novo estilo profissional na área da comunicação, além de levar informações sobre moda e beleza para pessoas afastadas dessas informações que são típicas por revistas especializadas da área, elas também constroem comunidades de leitores e seguidores que confiam em suas opiniões. As pessoas se tornam cada vez mais próximas e humanizadas de toda a informação com a qual tem contato diariamente.

Roberty Henry Srour em Ética empresarial: a gestão da reputação”, explica que a reputação esta diretamente ligada à confiança coletiva, “à legitimidade que se conquista pelas políticas praticadas ou pelas ações cometidas”, pontua o autor. As mídias sociais e digitais facilitam os processos de reputação, pois permitem moldar as ações praticadas no espaço digital de acordo com as imagens de si que se pretende divulgar.

            A pergunta que pauta todas essas questões é bem simples; Por que nos interessamos pela vida e imagem do outro? Quem ampara esse modelo de influenciadores? Estamos falando da mesma sociedade que posta e curte selfies, que faz publicações do almoço, do jantar, da academia que frequenta. Para Karhawi, essa é uma sociedade baseada na imagem e na repercussão dessa imagem no ambiente digital.

            Empresas procuram influenciadores para conquistar os públicos e os influenciadores também procuram marcas que lhe agreguem valor. É importante ressaltar que o trabalho de influenciador é uma união entre duas marcas, por essa razão a liberdade de criação é essencial quando se trata de produtores de conteúdo digital e não com modelos e celebridades.

            Os influenciadores são mídias autônomas e têm uma imagem de si construída sobre uma estrutura sólida de reputação e legitimidade no espaço digital. Eles se aproximam mais do consumidor, o que representa melhor a era globalizada, é a representação de um novo tempo, uma nova comunicação de moda.

Dos tapetes às passarelas

Por Bárbara Mandarano

Filho de dona Maria Lucia e do senhor César, Jean Felipe Lemos nasceu na cidade de Passos, mas foi em Carmo do Rio Claro, sudoeste mineiro que viveu maior parte de sua vida. Hoje aos 30 anos conhecido como Jean Honoratto, elx conta que adotou esse sobrenome artístico, pois além de combinar com sua personalidade é o nome de sua bisavó materna.

Jean é modelo e se classifica como uma pessoa sonhadora, dispersa, extrovertida e cheia de atitude. Sua cor preferida é verde e odeia chocolate.

Com o pai morando e trabalhando no campo, Jean comenta que foi criado por sua mãe e tias e teve uma infância perfeita. Brincar na rua com os amigos era comum, essa é uma das vantagens de viver em cidades pequenas do interior mineiro, elx ainda conta que alternava os dias das brincadeiras, brincando com as meninas de boneca e com os meninos de bola e carrinho de rolemã.

O modelo afirma que desde criança sentia o lado feminino e masculino em todas atividades que desempenhava e também se recorda das piadas de mau gosto que sofria naquela época, o que na verdade já era o preconceito escondido atrás de brincadeiras.

Jean se lembra que muito cedo os pais já o poupavam dos comentários maldosos que sua comunidade fazia em relação a sua identidade, e conta que eles sempre foram protetores e não queriam que Jean sofresse, pois já sabiam da crueldade das pessoas.

Muitas são as recordações de dona Maria Lucia comprando Barbie e confeccionando roupinhas para as suas bonecas, sua família sempre o acolheu com muito amor e aceitação. Jean circulou em vários espaços com muita liberdade, espaços considerados de meninas e de meninos pela sociedade, praticou karatê, futebol e também dança e teatro.

Ainda na infância elx nos conta que não era muito bom no colégio, mas estava sempre envolvido nas atividades artísticas e nessas sempre foi destaque. Jean também se recorda da gozação dos colegas quando levava a boneca Lala dos Teletubbies para brincar no recreio, e fala da situação com muito humor:

“muitos colegas me zoavam pela Lala, mas com todo meu trabalho de manipulação fiz com que todos aqueles que me zombaram brincassem com ela”.

O modelo conta que sempre gostou de dar close e se exibir, não importava onde, certa vez decidiu ser coroinha da igreja só para desfilar durante a missa passando pelo tapete até o altar.

Essa característica de estar sempre em evidência, participando de peças de teatro da escola, desfiles de concursos de beleza da comunidade mais tarde resultaria nos caminhos profissionais. Entre vários concursos surgiu a oportunidade de participar de algo um pouco maior, um concurso da Elite Model onde Jean pode fazer seu primeiro book, elx não venceu o concurso, mas a experiência valeu muito a pena para alavancar a carreira.

Na juventude Jean decidiu estudar moda e foi na faculdade que aprendeu que moda é comunicação e entendeu que poderia expressar tudo o que sentia, e foi naquele espaço que elx percebeu que o menino considerado estranho por sua comunidade poderia se transforma em uma mulher maravilhosa. Dentro do espaço acadêmico muitos trabalhos eram apresentados em formato de desfile e Jean já era selecionado pelos colegas para se apresentar.

Um acontecimento que marcou a vida e carreira de Jean Honorato foi a relação de amizade que fez com o fotógrafo João Cássio que na época estava começando na área e precisava de um modelo para ganhar experiência e montar seu portfólio.  João divulgava seu trabalho no saudoso Orkut, e através dessa divulgação uma agencia contactou Jean para um teste.

A partir daí começa oficialmente a vida de modelo de Jean, muito trabalhos sem cachê e somente em troca de divulgação, muitos “nãos” e portas na cara, mas nada disso foi motivo para fazer com que o modelo desistisse do sonho. As coisas começaram a acontecer e com um contato aqui e outro ali Jean foi ganhando experiência e visibilidade na carreira e no ambiente de moda.

Jean sempre soube das dificuldades que encontraria, mas nunca desanimou em continuar tentando, elx afirma que foi muito gratificante todo esse processo, e desabafa: “eu amo o que faço”.

A androginia se fez presente em toda vida de Jean, mesmo quando elx não sabia o que significava. No livro Fashion Culture and Identity, autor Fred Davis explica que a verdadeira androginia envolve uma fusão ou mutação dos itens específicos de vestuário e aparência, algo que destrói qualquer representação do sexo biológico de uma pessoa. Em outras palavras, para além das características biológicas visíveis, vestuário e outros acessórios utilizados pela pessoa teriam “nada a dizer” a respeito da questão de gênero ou papel sexual.

Em um de seus primeiros ensaios ainda menino, Jean se lembra de usar uma maquiagem super carregada e se identificava pela primeira vez com a imagem andrógina que enxergava.

Ao ser questionado sobre sua aparência andrógina, Jean declara “Sim, eu me sinto totalmente andrógino, sempre tive essa liberdade fluida (não binária) que me permitiu transitar pelos dois lados da moeda, e foi através da moda que tudo isso foi possível”.

De acordo com a pesquisadora Letícia Abraham no site do programa Bem Estar da GNT, o movimento genderless, que significa não possuir identidade de gênero, se manifestou na moda por meio de peças, como a calça boyfriend e a skinny, que servem tanto para homem quanto para mulher, ela ainda afirma que “vivendo uma vida genderless a sociedade fica muito menos preconceituosa, as pessoas podem ser mais felizes, mais autênticas”.

Para Jean a moda sem gênero prega uma forma de se vestir livre de preconceitos, “aprendi a entender meu corpo e isso é o melhor de mim” declara o modelo.

O modelo tem uma forte relação com as roupas, para ele a roupa comunica e reflete a personalidade, através dela ele pode se expressar diariamente. Elx explica que através de suas roupas é capaz de seduzir, se empoderar ou ser romântico e frágil dependendo do seu estado de espírito.

“Eu amo me produzir e sentir qual a vibe do meu dia, se estou a fim de assumir um personagem ou simplesmente expressar o sentimento daquela ocasião.

Normalmente sou ousado, gosto de exageros, como ir a padaria de salto alto, eu amo, me sinto bem” afirma Jean. Para elx o importante é se divertir e se sentir bem através de suas roupas.

Quando o assunto é sobre ídolos, Jean diz que tem muitos, porém seria injusto não eleger a Diva Beyoncé como a número um de sua lista. “Ela sempre vai ser um ícone, símbolo de representatividade pra mim, uma mulher negra, feminista, talentosa, consagrada por todos e respeitada pelo seu local de fala”, explica o modelo.

Mulher poderosa e dona de si, Beyoncé é uma das maiores inspirações para o modelo, elx conta que tudo que aconteceu em sua vida teve uma trilha sonora da musa.

Em tempos de pandemia e com os trabalhos todos adiados, Jean tem usado seu tempo recluso para refletir sobre várias questões e entre elas a importância de seu papel dentro do coletivo que representa.

É um momento onde a diversidade esta conquistando cada vez mais espaço, “as pessoas estão entendendo a importância que é ter uma bicha preta com seu black armado dando close”, declara o modelo.

Jean foi convidado recentemente a participar do Miss Gay São Paulo , a primeiro momento ele pensou que aceitando seria uma incrível oportunidade para sua carreira e para enaltecer seu ego, mas logo depois se deu conta da importância de sua representação na participação desse evento. Ele ainda garante que esse é um concurso que envolve uma questão social fundamental em apoio a causa LGBTQIA+.

Entre muitos projetos pós-pandemia que Jean almeja, conseguir o título de Miss Gay São Paulo, Miss Gay Brasil e o tão cobiçado Miss Gay Universo são as maiores metas e ambições. Enquanto isso ele aproveita pra se dedicar aos estudos, cuidar do corpo e da mente para estar preparado para tudo que vem pela frente, e deixa escapar que um suposto relacionamento pode firmar.

No ultimo domingo 17 de maio foi dia Internacional contra Homofobia e Transfobia, data que se tornou simbólica por ser sinônimo de luta pelos direitos humanos e pela diversidade sexual, contra violência e o preconceito. Perguntamos a Jean o que essa data simboliza em sua vida e história. O modelo desabafa:

“sabemos que se assumir não é fácil, o conflito começa dentro de você e dentro de casa, o que não foi o meu caso, mas é o da maioria. Não há nada mais libertador do que poder ser quem se é de verdade, sem máscaras e sem amarras, a vida é uma só pra se limitar e se esconder”.

Jean assegura que a comunidade LGBTQIA+ move e motiva a resistência e encerra desejando amor e vibrando pela diversidade.

A (Trans)formação da Moda

Por Caique Jota

Vocês já se questionaram quando o padrão da Moda que conhecemos hoje foi dividido entre o que é Feminina e Masculina? Existe uma explicação histórica e preciso dizer, culpem a Revolução Francesa!

Lá nos anos 1700, na Moda, embora existisse o papel “homem e mulher” estipulado com seus deveres (assunto para uma outra matéria), essa diferença não era dividida nas roupas. As vestimentas eram similares, homens usavam saltos, perucas e camisolas para dormir, a sociedade não via problema algum nisso, diferente do cenário pós Revolução Francesa, onde o Modelo Burguês de Comportamento foi adotado. Esse comportamento estabeleceu a separação do gênero através da Moda, o que a gente carrega até hoje. Será que não esta na hora da gente adotar um novo modelo de comportamento?! This is so 1800s.

Para falar sobre a Identidade de Gênero na Moda, acredito ser importante incluir pessoas que não se enquadram no padrão binário (homens e mulheres cis) imposto por anos, pela Sociedade, então convidei o Gui (@guigrossii) para trocar uma ideia sobre o assunto.


– Gui, me conta quem é você e o que é Moda pra você?

Gui: “Eu sou o Guilherme, a Gui ou a “Grossinha” como me chamam na internet, rs. Tenho 22 anos, moro em São Paulo, capital. Sou formado em Produção de Moda e atualmente trabalho em um e-commerce de moda e estou procurando um espaço na internet onde eu possa comunicar sobre as potencias do meu corpo. Me identifico como uma pessoa não-binária e não me importo com pronomes. O Guilherme ou a Gui são vários/várias em um só́ corpo. Sempre digo que o meu corpo é mutável e estou aberta a qualquer mudança. Viver é não se prender nas amarras da sociedade. Pra mim sempre enxerguei moda como comportamento e comunicação pura, eu decido a mensagem que quero deixar no mundo.”

– Como você explicaria o que é Identidade de gênero pra alguém que não sabe ou não entende?

Gui: “Identidade de gênero nada mais é do que o gênero com que a pessoa se identifica, homem, mulher ou se ela vê a si como fora do convencional, como em não-variedade e variância de gêneros. Pode também ser usado para referir ao gênero que certa pessoa atribui, tendo como base como a pessoa se reconhece como indicações de papel social de gênero (roupas, corte de cabelo, etc.”

– Qual o peso da Identidade de Gênero na moda pra você que vive uma Identidade de Gênero que não é o “padrão” da sociedade?

Gui: “A maior dificuldade em ser uma pessoa não binaria, além do machismo, é claro, é a falta entendimento das pessoas. Me chateia quando dizem que eu estou perdida, eu tenho total noção de quem eu sou. Estou viva e quero ser quem eu puder e quiser ser.”

– O que você acredita ainda faltar na sociedade pra todos pararem de definir gênero pelas roupas?

Sinto que hoje na Moda as pessoas aceitaram e entenderam melhor que no final do dia roupa é roupa, não existe gênero em um pedaço de tecido. Mas continuo batendo na tecla de que estamos muito distantes desse lugar respeitador que todos nós deveríamos ter acesso.

– Você se sente representado pelas lojas/marcas?

Não lembro de não me sentir representado porque sempre enxerguei roupas como elas são: roupas. É importante ressaltar que estou falando de um lugar de muito privilegio por ser uma pessoa magra e ter facilidade em achar roupas que caibam em mim. Mas saibam que setor masculino e feminino não é capaz de aprisionar corpos livres.

– O que você pensa sobre marcas que produzem moda sem gênero? Você acredita que Moda Sem Gênero é o futuro da moda?

Marcas que tem como embasamento a Moda Agênero são marcas que ganham espaço no mercado pela causa, mas não consigo afirmar que seria o futuro da moda. Precisamos conquistar muitas outras coisas ainda e a moda é um reflexo da sociedade, quando conseguirmos aí sim a moda sem gênero ganha vida e espaço.

– O que você acredita ainda faltar na sociedade pra todos pararem de definir gênero pelas roupas?

Como eu disse ali em cima, moda é comunicação pura e um reflexo social, quando nós conseguirmos destruir essa sociedade patriarcal que nos silenciam o tempo todo, assuntos como esses não serão mais discutidos. Eu não luto pelo fim da moda, eu só́ quero uma moda mais justa e que nos aceite. Enquanto a gente não atinge esse lugar respeitador não vamos nos silenciar, não podemos ter medo. Roupa comunica mais do que a gente imagina, roupa (trans)forma. É tão lindo ver um corpo livre e feliz.

Eu não luto pelo fim da moda, eu só́ quero uma moda mais justa e que nos aceite. Enquanto a gente não atinge esse lugar respeitador não vamos nos silenciar, não podemos ter medo. Roupa comunica mais do que a gente imagina, roupa (trans)forma. É tão lindo ver um corpo livre e feliz.”


No Brasil, existe uma luta gigante para todos serem aceitos do jeito que são e todos poderem se expressar como quiserem. Na teoria, todos temos direito a expressão e a existência, porém quando falamos de pessoas que fogem da curva padronizada da sociedade, vemos várias rachaduras no sistema. Vemos que somos o país com mais casos de mortes por conta da LGBTQIA+fobia, somos o país que mais mata pessoas por serem pessoas.

Claro que toda essa luta tem vários outros aspectos, mas a Moda é uma forma da gente mostrar pra sociedade que tá tudo bem sermos quem somos, quem queremos ser, então que tal voltar pra cena fashion de 1700?!

Canais de denúncia contra LGBTQIA+fobia virtual (redes sociais, sites, etc)https://new.safernet.org.br/denuncie

Delegacias – Toda delegacia tem o dever de atender as vítimas de homofobia e de buscar por justiça. Nesses casos, é necessário registrar um Boletim de Ocorrência e buscar a ajuda de possíveis testemunhas na luta judicial a ser iniciada. As denúncias podem ser feitas também pelo 190 (número da Polícia Militar) e pelo Disque 100 (Departamento de Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos).

Em alguns estados brasileiros, há órgãos públicos que fazem atendimento especializado para casos de homofobia.

Bibliografia

https://sp.cut.org.br/noticias/brasil-segue-no-topo-dos-paises-onde-mais-se-mata-lgbts-4d85

Artigo: Construindo a Diferença, Vestuário e Gênero no Séc  XIX

Representatividade negra na moda

O Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para Nigéria, mais da metade do povo brasileiro descende de povos africanos. No universo da moda assim como muitos outros a figura do negro ainda é pouco representada, e isso tem ligação com racismo estrutural de não associar o negro ao belo e a riqueza. Essa é uma questão que vem passando por mudanças, porém ainda existe um longo caminho pela frente. Matheus Negrão um dos nossos entrevistados dessa edição afirma que quando falamos de representatividade negra da moda, há uma quebra de paradigma da imagem que foi arquitetada historicamente, pois a imagem que os brancos do período colonial queriam passar dos negros foi pensada com objetivo de demarcar posições. Para Janna Dun, também entrevistada nessa edição, os negros estão em poucos lugares de destaque, principalmente no mercado de moda, pois a representatividade branca ainda prevalece.

Por Renan Cardoso


– Matheus Negrão também é nosso entrevistado desta edição, perguntamos a ele sobre a representatividade negra na moda. Como você julga esse cenário sendo uma modelo preta dentro deste universo?

Janna: “Vejo os negros tomando espaço, porém é uma mudança pequena. Tem poucos negros em lugares de destaque, principalmente no mercado da moda, porque a representatividade branca ainda é maioria.

Ganhamos um poder de fala com o avanço das redes sociais, porque gerou uma pressão no mercado da moda, eu como modelo vejo isso a todo o momento. Na maioria das vezes é muito conveniente usar nossa cultura, nossa maneira de vestir, nossos costumes e não colocar nossa gente para representá-los.

Um questionamento que me vem à cabeça é “essa mudança é genuína ou o negro está na moda?”

Como você iniciou a sua carreira?

Janna: “Iniciei na minha cidade natal Miguelópolis, participando de concursos, em um evento tive a oportunidade de conhecer um booker de uma agência de São Paulo, e não pensei duas vezes em ir viver meu sonho. Quando decidi morar em São Paulo eu não tinha dinheiro para arcar com todas as despesas, então tive a ideia de vender marmitas e com esse dinheiro me mudar. Chegando lá, passei 20 dias comendo miojo, para economizar. Andei a pé por 1h30 pra chegar em um casting. Morei em uma casa com 40 meninas. O meu celular era aquele que só fazia ligação, eu não tinha Google Maps, ficava super perdida. Uma vez quase fui parar na “cracolândia”– aloka– . Parava no ponto de ônibus errado… foi babado viu!!! – risos –“

– Recentemente você participou da campanha da Pantene (Unidas Pelos Cachos) qual foi importância de participar desta campanha e qual a relevância social dessa ação para você?

Janna: “Fiquei super feliz em ser uma referência para tantas mulheres, eu tenho orgulho quando alguém olha pra mim e diz: “Muito obrigada por ser quem você é por me fazer acreditar em mim.”

– Aproveitando essa edição de Dias Das Mães, como foi a participação da sua mãe na construção da carreira?

Janna: “Minha mãe sempre me apoiou em tudo, e ela esteve comigo em todos os momentos. Sou muito grata a ela, por cada palavra de incentivo, por acreditar no meu sonho.”


– Como você analisa a representatividade negra na moda ao longo dos últimos anos até os dias de hoje?

Math: “Se mais da metade da população brasileira é negra, e a moda reflete a sociedade o que é atual, por que os negros e a cultura negra não ocupam esse espaço? O que chamamos de belo faz parte de uma construção social que dita padrões, o qual atualmente é o padrão da beleza europeia. A imagem dos corpos negros faz parte de um imaginário social, onde as pessoas ligam a marginalização, violência e muitas vezes algo animalesco. Quando falamos de representatividade negra na moda nós quebramos o paradigma dessa imagem que foi arquitetada historicamente, uso essa expressão porque a imagem que os brancos no período colonial queriam passar dos negros foi estrategicamente pensada com o objetivo de explicar a posição que o negro deveria ocupar socialmente. Sabemos que essa ideia estética ainda existe no inconsciente de muitos, e para a construção de identidade de um negro, principalmente num espaço que envolve autoestima e reflete a sociedade, se enxergar é muito importante para que possa descontruir essa imagem que nos é associada e para que possamos ser vistos na indústria audiovisual, que nos resume em um padrão de pobreza.

O movimento “AfroPunk” e a “Geração Tombamento” vem ganhando cada vez mais força e enaltecendo nossas raízes, nossas cores, nossas texturas, mostrando toda a beleza que existe nos corpos negros e em nossa história que foi apagada. Não é só estética, é um empoderamento!”

A gente trás como entretenimento dessa edição da revista a série Sex Education, o personagem Eric tem uma forte representatividade social na trama. Você acha que a série abordou essa representatividade de maneira plausível?

Math: “Pelo amor de Deus, essa série É TUDO! (Matheus vibra) Todo mundo tem que assistir essa série. Quando falamos de representatividade social ela aborda algumas problemáticas que só quem estuda negritude consegue pegar a importância dessas questões. A fase de descobertas que Eric vive, que é a fase da adolescência, é uma das mais difíceis para um homem negro, porque existe um estereótipo de quem o homem negro PRECISA ser. Evidentemente mais másculo do que o normal, a masculinidade tóxica é muito maior para um homem negro e vemos isso claramente quando Eric decide ser quem os outros esperam que ele seja e repentinamente vira uma pessoa violenta. A maior parte dos amigos de Eric são brancos e isso reflete na forma romantizada que ele enxerga o mundo. O momento que mais mostra a dificuldade de ser um jovem negro é a forma que ele constantemente é trocado por outros personagens brancos. Eric é largado por um homem branco para ir atrás de uma mulher branca, isso reflete muito a solidão afetiva dos negros, onde servimos como muleta para ajudar a solucionar problemas e na parte sexual, mas quando o assunto é afeto e fidelidade a pessoa foge. A série realmente surpreende e quebra um paradigma que gera até um estranhamento em quem assiste quando mostra a aflição de um pai protestante, hétero e negro não sendo violento ao descobrir que seu filho é gay. O pai junto ao Eric protagoniza cenas lindas, então se não assistiu já prepara o lenço. O único ponto de alerta e que precisa ficar claro e que a série deixa isso mal resolvido é a naturalização e a “romantização” do que uma pessoa que comete homofobia e racismo, tenha uma paixão secreta.”

– Você fala em alguns dos seus posts sobre auto conhecimento e libertação, e um post em específico sobre o seu cabelo e sobre aceitá-lo. Como foi e como é hoje a relação de auto amor com seu corpo, pele e cabelo?

Math: “Lembro de ouvir quando eu era criança de que eu não era negro, eu era moreno. E quando você ouve isso e vive o racismo, você passa a enxergar o quanto essa fala tem a intenção de mascará-lo, pois só mostra que a palavra “negro” ainda é ligada a marginalidade. E que família deseja que seu filho tenha essa associação? Eu me tornei negro porque houve uma descoberta, eu tive que pesquisar minhas raízes, quem era meu povo preto e porque eu sofria sem saber, por que as pessoas me enxergavam diferente? Então eu só descobri quem é o Matheus quando eu comecei a estudar e descobrir minha negritude. Desde pequeno eu raspava meu cabelo, consciente ou inconscientemente os negros acreditam que raspando a cabeça estarão mais apresentáveis e mais livres de preconceitos, fica mais fácil para não ser julgado, para se relacionar. Isso foi um jeito de me embranquecer, simplesmente para agradar. Sabemos que quanto mais sua pele for escura, maior o nariz, maior seu cabelo e mais crespo ele for, mais racismo você vai sofrer. Por isso falo que esse processo é um ato de auto amor e liberdade, porque você se livra de todas as algemas que nos prendem de sermos quem somos e não tem nada mais bonito do que ser quem a gente é, sendo real, sem filtros, sem rótulos.”

Apesar dos números indicarem avanço na diminuição da desigualdade racial no Brasil nos postos de trabalho, o trabalho braçal ainda é associado aos pretos. Como você entende essa situação e qual a maneira de valorizar o trabalho de vocês?

Math: “É lindo ver negros ocupando cada vez mais cargos importantes e sendo valorizados. Enxergo essa valorização como uma reparação histórica. Apesar disso é importante ter em mente que quando se trata de racismo não existe uma blindagem. O racismo não poupa seus alvos, não importa sua posição social, reconhecimento intelectual, até o maior elemento de status, quando se relaciona com o negro, é questionado. O trabalho braçal ainda é associado aos negros porque essa imagem ainda está presente no imaginário social. Por ser parte de uma estrutura, a desconstrução de cada um é individual, eu não posso fazer isso por ninguém, por isso que a consciência é importante.

A partir do momento que as pessoas criarem um entendimento sobre esse assunto a valorização do trabalho de um negro passa a ser natural, pois existirá uma lucidez social de que para um negro estar onde ele está foi muito mais difícil do que para um branco que tem seus privilégios.”

– Aproveitando nossa edição de Dias Das Mães, você gostaria de deixar alguma mensagem para todas as mães e para a sua nessa data?

Math: “Sim! Eu arrisco definir (se é que é possível) o que é ser mãe em duas palavras; amor e força. Seja quem for que faça o papel de mãe em nossas vidas precisa ser valorizada, não existe nada mais puro e bonito do que o amor de mãe.

Em especial gostaria de deixar uma reflexão e mensagem para as mães negras. Historicamente sabemos que as mulheres negras sempre cuidaram de crianças que não eram suas filhas e que seus filhos acabavam ficando em segundo plano, então para uma mulher negra e que tem o papel de mãe, a vida sempre foi mais difícil, pois além de educar os seus, tinham que educar e dar o afeto para o filho dos outros. Queria agradecer a todas as mães negras, pela força, pois não é fácil educar e empoderar filhos negros em um país racista, sempre preocupadas com o sofrimento de ver seus filhos passarem pelo processo de racismo e em saber que seus filhos têm muito mais chance de morrer apenas por serem negros. Então, deixo meu carinho e amor especial a essas mulheres negras que trazem consigo um amor incondicional pelos seus filhos e pelos demais que se tornam filhos do coração, mesmo elas sendo injustiçadas e desvalorizadas. Que essa data além de causar reflexão seja uma data de amor.”